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terça-feira, 7 de maio de 2013

O Peregrino

Capítulo 5*

Cristão em casa de Intérprete. Coisas que lá viu; um bom ministro do Evangelho; regenerado pela fé dum coração por natureza corrompido; a melhor escolha; a vida espiritual sustentada pela graça; a perseverança; a apostasia; o juízo final.


Pôs-se Cristão a caminho com muito ânimo, e dentro de pouco tempo, chegava à casa de Intérprete. Bateu à porta repetidas vezes, até que lhe perguntaram quem era.

Cristão – Sou um viajante enviado por um conhecido do dono desta casa, a fim de saber coisas proveitosas. Desejava, portanto, falar ao dono da casa.

Este apareceu imediatamente, e dirigindo-se ao viajante, perguntou-lhe:

Intérprete – Que pretendes?

Cristão – Senhor, eu venho da cidade da Destruição e dirijo-me para o monte Sião. O homem que está à porta da entrada do caminho disse-me que eu devia passar por esta casa, e que me ias mostrar muitas coisas excelentes e proveitosas para a minha viagem.

Intérprete – Podes entrar. Serão cumpridos os teus desejos.

Em seguida ordenou a um de seus criados que acendesse uma luz, e tomando pela mão o viajante, introduziu-o numa sala. Abriu depois uma porta, e Cristão viu, pregado na parede, o retrato duma personagem grave e majestosa dos livros na mão e a lei da verdade escrita nos seus lábios; voltava as costas ao mundo, e estava na atitude de instar com os homens; uma coroa de ouro estava pendente sobre a sua cabeça. Dirigindo-se a Cristão, que não percebia o que significava aquele quadro, disse-lhe:

Intérprete – Este é um entre mil. Este pode tomar para si aquelas palavras do Apóstolo: “Porque, ainda que tenhais dez mil aios em Cristo, não tereis, todavia, muitos pais; pois eu sou o que vos gerou em Cristo pelo Evangelho. Filhinhos meus, por quem eu de novo sinto as dores de parto.” (I Coríntios 4:15; Gálatas 4:19). E o apresentar-se com os olhos levantados para o céu, o melhor dos livros na mão, e lei da verdade escrita em seus lábios, é para te mostrar que se ocupa em conhecer e explicar coisas obscuras para os pecadores; e por isso está de pé, na atitude de quem trata de convencê-los. Tem o mundo atrás das costas, e uma coroa de ouro pendente sobre sua cabeça para te significar que, desprezando e fazendo pouco caso das coisas deste mundo, por causa do serviço do seu Senhor, terá como recompensa, no século futuro, uma coroa de glória. Principiei por te mostrar este quadro, porque a personagem aqui representada é a única autorizada pelo Senhor do lugar para onde te diriges, para te guiar em todos os passos difíceis que hás de encontrar no teu caminho. Não te esqueças do que te ensinei nem do que viste, porque talvez encontres na tua viagem alguém que, inculcando-se guia, te queira encaminhar para a morte.

Depois pegou-lhe na mão e conduziu-o a uma sala cheia de poeira, porque nunca fora varrida, e, tendo ordenado a um dos criados que a varresse, levantou-se tal nuvem de poeira que Cristão ia ficando sufocado. Disse Intérprete então a uma jovem, que os acompanhava, que borrifasse a casa com água, e assim pôde varrer-se a casa sem dificuldade.

Cristão – Que significa isto?

Intérprete – A sala representa um coração que nunca foi santificado pela doce graça do Evangelho; a poeira é o pecado original e a corrupção interior, que contamina todos os homens; o que principiou a varrer é a lei, e a jovem que trouxe a água e borrifou a sala é o Evangelho. Certamente notaste, quando o primeiro começou a varrer, que se levantou tanto pó que foi absolutamente impossível continuar, e estiveste quase a ser asfixiado: isto significa que a lei, em lugar de limpar os corações do pecado, fá-lo reviver cada vez mais (Romanos 7:9), dá-lhe força (I Coríntios 15:16), e fá-lo medrar na alma (Romanos 5:20), ao mesmo tempo que o denuncia e o prescreve, sem dar a força necessária para o vencer. O fato de ter sido possível varrê-lo e limpá-lo depois de o ter a jovem regado, significa que, quando o Evangelho entra no coração, vence e subjuga o pecado com a sua doce e preciosa influência. Limpa a alma que nele crê e torna-a digna de ser habitada pelo Rei da Glória (João 15:3; Romanos 3:25-26; Efésios 5:26; Atos 15:29).

Vi mais em meu sonho, que o Intérprete tomou, em seguida, a mão do Peregrino e conduziu-o a um pequeno quarto onde estavam dois meninos sentados; o mais velho chamava-se Paixão e o mais novo Paciência; o primeiro estava muito inquieto, e o segundo muito sossegado. Aquele, disse Intérprete, não se resigna a esperar, até ao princípio do ano futuro, pela posse das coisas que mais estima, como lhe aconselha o seu preceptor; queria possuí-las já, e como não pode consegui-lo, está inquieto. Paciência, porém, resigna-se e espera.

Naquele momento vi entrar um homem com um saco de dinheiro, que colocou aos pés de Paixão. Este recebeu-o com grande interesse e alegria, dirigindo a Paciência um sorriso de escárnio, mas a sua alegria foi pouco duradoura, porque o dinheiro depressa se gastou; nada mais restou a Paixão do que uns miseráveis andrajos.

Intérprete – Paixão é a imagem dos homens deste mundo, e Paciência a dos homens do século futuro. Paixão quer possuir e gozar tudo agora, neste mesmo ano, isto é, neste mundo, à semelhança dos homens que querem gozar tudo quanto se lhes afigura melhor, e nada desejam para o mundo futuro, ou para a outra vida. O conhecido provérbio – mais vale um pássaro na mão que dois voando, é para eles de muito mais valor do que todos os testemunhos divinos acerca da felicidade futura. E que lhes acontece? Assim como a Paixão só ficaram uns andrajos depois de gasto o dinheiro, assim a eles sucederá.

Cristão – Compreendo perfeitamente que Paciência é muito mais sensato: 1º. Porque aspira as coisas mais excelentes, e 2º porque há de gozá-las e ter nelas a sua glória, quando aos outros só restarem andrajos.

Intérprete – E, ao que disseste, deves acrescentar que a glória do século futuro será eterna, enquanto que os bens deste século se dissipam como fumo. Quem tem incontestável direito para se rir de Paixão é Paciência: porque terá finalmente a sua felicidade, ao passo que Paixão a tem agora. O primeiro há de ceder necessariamente o campo ao último, enquanto que este a ninguém terá que ceder, porque ninguém se lhe segue. O que recebe o seu quinhão do presente gasta-o no tempo, até que nada lhe reste, e o que o recebe no final conserva-lo-á para sempre, porque não há haverá mais tempo em que possa gastá-lo. Assim como dito ao rico avarento: “Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e que Lázaro não teve senão males; mas por isso está ele agora consolado e tu em tormentos.” (Lucas 16:25).

Cristão - Visto isso, percebo que é melhor não cobiçarmos as coisas presentes, e ter esperança nas futuras.

Intérprete - Assim é: “As coisas que se vêem são temporais, mas as que se não vêem são eternas” (II Coríntios 4:18). Acontece, porém, que, havendo grande afinidade entre as coisas presentes e os nossos apetites carnais, prontamente se tornam amigos; o que não sucede com ais coisas futuras, que tão longe estão do sentido da carne (Romanos 7:15-25). 
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*Continuação da leitura do livro "O Peregrino" para a turma da "Sala de Estudos"

O Peregrino

Capítulo 4*

Cristão chega à porta estreita; pede o cumprimento da promessa evangélica, bate e é recebido com afabilidade.

Pouco depois chegava Cristão, felizmente, ao pé da suspirada porta estreita, sobre a qual estava escrito o seguinte dístico: “Bata que eu abro”. (Mateus 7:7).

Bateu repetidas vezes, dizendo: Ser-me-á permitido entrar agora? Aquele que está dentro terá vontade de receber-me, a mim, miserável pecador? Apesar de eu ter sido rebelde, cantarei eternamente os seus louvores nas alturas.

Por fim veio à porta uma pessoa chamada Boa-Vontade, e perguntou: Quem és? Donde vens? Que pretendes?

Cristão – Senhor, sou um pecador, cansado e carregado. Venho da cidade da Destruição, e dirijo-me ao Monte Sião para escapar à ira vindoura. Disseram-me, honrado homem, que para seguir o meu caminho devia entrar por esta porta; e desejo saber se dás licença que entre.

Boa-Vontade – Ora essa! Com todo o gosto. - E, dizendo isto, abriu-lhe a porta.

Quando Cristão ia entrando, Boa-Vontade puxou-o com força para dentro.

Cristão – Que significa isto?

Boa-Vontade – Há aqui perto um castelo, cujo governador é belzebu, que juntamente com os seus soldados, está continuamente despedindo setas contra aqueles que se aproximam desta porta, a fim de os matar antes que entrem.

Cristão – Alegro-me tanto quanto tremo em saber que estive em tamanho risco.

Boa-Vontade – Agora que já estás livre e sossegado, responde ao que te pergunto:Quem te mandou para aqui?

Cristão – O senhor Evangelista, que me disse: Vai ali, e bate à porta; lá ensinar-te-ão o que te convém fazer.

Boa-Vontade – Tens aberta uma porta que ninguém poderá fechar-te.

Cristão – Quão venturoso sou! Começo a colher o fruto da minha ousadia.

Boa-Vontade – Então, vieste só?

Cristão – Vim; porque nenhum dos meus vizinhos conheceu, como eu, o perigo em que se achava.

Boa-Vontade – Mas souberam alguns da tua vinda?

Cristão – Primeiro dela souberam minha mulher e meus filhos, que não queriam deixar-me partir; e às vozes destes acudiram vários vizinhos que também em altos gritos me chamavam; mas eu tapei os ouvidos e segui o meu caminho.

Boa-Vontade – E ninguém te seguiu para te aconselhar a voltares para casa?

Cristão – Seguiram-me Obstinado e Flexível, mas quando se convenceram da inutilidade dos seus esforços, deixaram-me – o primeiro, cobrindo-me de impropérios e o segundo pouco depois.

Boa-Vontade – E por que não veio esse contigo?

Cristão – Quando chegamos ao Pântano da Desconfiança, caímos ambos no lodo, e foi tal o susto do meu vizinho que não se atreveu a expor-se a outros perigos. Saiu da lagoa pela banda que ficava mais próxima de sua casa, dizendo-me que me deixava a posse plena do bendito país. Depois seguiu nas pisadas de Obstinado e eu continuei o meu caminho na direção desta porta.

Boa-Vontade – Quão desgraçado é este teu vizinho! A glória celestial tem para ele tão diminuto valor que lhe parece não valer a pena arriscar-se a alguns perigos para a alcançar.

Cristão – Senhor, é verdade quanto eu disse de Flexível; mas se compararmos o seu procedimento com o meu... não sei qual deles será o pior. Eu também me apartei deste caminho para seguir o da morte, porque dei ouvidos aos argumentos carnais dum sujeito chamado Sábio-Segundo-o-Mundo.

Cristão – Segui-o, enquanto tive forças. Ia em busca do tal senhor Legalidade; mas quando cheguei ao pé da montanha que fica próxima de sua casa, tive medo de que ela desabasse sobre mim e detive-me.

Boa-Vontade – Ah! É incalculável o número de mortes que essa montanha tem à sua conta! E quantas causará ela ainda! Feliz és tu, que escapaste de ser esmagado por ela.

Cristão – Verdade, verdade, quem sabe o que teria sido de mim, se naquele momento de incerteza e receio, não me tivesse aparecido Evangelista. Se não fora ele, nunca aqui eu teria chegado. Mas, por felicidade, aqui me acho tal qual sou, e certamente mais digno de ter sido esmagado pela montanha do que estar falando contigo. Grande favor me fizeste em abrir a porta, depois de tudo quanto te hei contado.

Boa-Vontade – A ninguém levantamos dificuldades, qualquer que tenha sido a sua vida anterior. A ninguém lançamos fora (João 6:37). Vou dar-te alguns esclarecimentos acerca do caminho que hás de seguir. Olha lá para diante. Vês um caminho estreito? É por ali que deves ir. Por ele passaram os Patriarcas, os Profetas, Cristo e os Apóstolos: é um caminho tão direito como uma linha reta.

Cristão – Então não tem voltas e desvios por onde se perca um forasteiro?

Boa-Vontade – Sim, tem muitas encruzilhadas, e muitos atalhos bastante largos; mas a regra para distinguir o verdadeiro caminho é esta: sempre reto e estreito (Mateus 7:14).

Segundo observei no meu sonho, perguntou-lhe depois:

Cristão – Não poderei ser aliviado do peso deste fardo que trago às costas? Se alguém não me ajuda, não me será possível ir adiante.

Boa-Vontade – Não desanimes. Continua a levar o teu fardo alegremente, até chegares ao lugar em que hás de ver-te livre dele, pois que por si mesmo te cairá dos ombros.

Cristão começou a cingir-se, preparando-se para a marcha. Boa-Vontade avisou-lhe de que brevemente encontraria a casa de Intérprete, onde devia bater e ouvir coisas muito úteis e excelentes; e despediu-se carinhosamente de Cristão, desejando-lhe próspera viagem e a companhia do Senhor.

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*Continuação da leitura do livro "O Peregrino" para a turma da "Sala de Estudos"

 Continuação... Capítulo 5


O Peregrino


Capítulo 3*

Cristão abandona o caminho enganado por Sábio-Segundo-o-Mundo; mas Evangelista sai-lhe ao encontro, e indica-lhe de novo o caminho a seguir


Cristão, apesar de se achar só, empreendeu a sua marcha resolutamente, e viu caminhar para ele, no meio da planície, um sujeito com quem pouco depois se encontrou no ponto em que se cruzavam as diferentes direções em que marchavam. Este novo interlocutor chamava-se Sábio-Segundo-o Mundo, e habitava numa cidade conhecida por Prudência-Carnal, situada a pouca distância da cidade da Destruição. Tinha ele ouvido falar de Cristão, pois a sua partida da terra natal tinha sido muito falada, e vendo-o agora caminhar tão fatigado devido ao fardo que conduzia, e ouvindo-lhe os gemidos e os suspiros, dirigiuse- lhe nos seguintes termos:

Sábio – Bem-vindo sejas, amigo! Aonde vais com este fardo tão pesado?

Cristão – Dizes bem. É tão pesado que nunca pessoa alguma carregou um peso assim. Dirijo-me para a porta estreita, que vês além, porque, segundo me disseram, lá é onde me comunicarão o modo de ver-me livre deste fardo.

Sábio – Tens mulher e filhos?

Cristão – Tenho, sim; mas este fardo preocupa-me e aflige-me tanto que já não sinto por eles o prazer que possuía outrora, e apenas tenho consciência de os possuir. (I Coríntios 7:29).

Sábio – Vamos; escuta-me, que posso dar-te muitos bons conselhos.

Cristão – Recebê-los-ei com o maior gosto, pois preciso muito de bons conselhos.

Sábio – Em primeiro lugar, sou de parecer que te desfaças, quanto antes, desse peso. Enquanto assim não fizeres, a tua alma não estará tranqüila, nem poderás gozar, como deves, as bênçãos que o Senhor derramou sobre ti.

Cristão – Disso mesmo é que eu vou em busca, visto ser-me impossível fazê-lo por mim mesmo, e não haver no país quem seja capaz de o conseguir. Foi só com esse fim que eu empreendi esta viagem.

Sábio – Quem te aconselhou a empreendê-la?

Cristão – Um cavalheiro que me parece muito digno de respeito e de consideração. Lembro-me de que se chamava Evangelista.

Sábio – Maldito seja quem tais conselhos dá! Este caminho é exatamente o mais difícil e perigoso que há no mundo. Não começaste já a experimentá-lo? Bem te vejo cheio de lodo do Pântano da Desconfiança. E olha que esse não é senão o primeiro elo da cadeia de males que por esse caminho te esperam. Sou mais velho do que tu, e tenho ouvido muitas pessoas darem testemunho próprio de que por aí afora só há fadigas, penas, fome, perigos, nudez, leões, dragões, trevas, em suma a morte com todos os seus horrores. Dize-me francamente, para que se há de perder um homem por dar ouvidos a estranhos?

Cristão – Da melhor boa vontade sofreria todos os males que acabas de enumerar, em troca de me ver livre deste fardo que é para mim mais pesado e mais terrível do que todos eles.

Sábio – E como veio esse fardo para cima de ti?

Cristão – Lendo eu este livro que tenho na mão.

Sábio – Logo me quis parecer. És um desses imbecis que se metem em coisas elevadas demais para eles, e que por fim encontram tantas dificuldades e perdem o juízo e são arrastados a desesperadas aventuras para alcançarem um coisa que nem mesmo sabem o que é.

Cristão – Quanto a mim, sei perfeitamente o que quero: ver-me livre deste pesado fardo.

Sábio – Compreendo isto. Mas para que hás de ir por um caminho tão perigoso, se eu posso indicar-te outro em que não há nenhuma dessas dificuldades? Tem um pouco de paciência, e ouve-me: o meu remédio está à mão, e em vez de perigos, acharás segurança, amigos, e satisfação.

Cristão – Então fala; peço-te com muita insistência; descobre-me esse segredo.

Sábio – Olha: nessa aldeia próxima, que se chama Moralidade, vive um homem de muito juízo e grande reputação, cujo nome é Legalidade, o qual é muito hábil em tratar pessoas como tu, o que tem sido provado com numerosos exemplos; além disso, também sabe curar os indivíduos que padecem do cérebro. A casa dele fica daqui a um quarto de légua, quando muito, e, se ele não estiver em casa, seu filho, Urbanidade, que é um mancebo de grande talento, poderá servir-te tão bem como seu pai. Não deixes de lá ir. E se não estás disposto, como não deves estar, a voltar à tua cidade, manda buscar tua mulher e teus filhos, porque na aldeia de que te falo há muitas casas devolutas, e podes arranjar uma por preço muito módico. Outra coisa boa aí encontrarás: vizinhos honrados, de fino trato e bons costumes. A vida ali é muito barata e cômoda.

Ao ouvir estas palavras, Cristão ficou indeciso durante alguns momentos, mas logo lhe acudiu este pensamento: - Se é verdade o que ele diz, a prudência manda-me seguir as suas palavras.

Cristão – Por onde é que se vai à casa desse honrado homem?

Sábio – Depois de passares aquela alta montanha, a primeira casa que encontrares é a dele.

Cristão mudou imediatamente de resolução, para dirigir-se à casa do Sr. Legalidade, em busca do remédio apetecido. Quando chegou às abas da montanha, pareceu-lhe esta tão elevada, e tanto a prumo no sítio por onde tinha de passar, que teve medo de prosseguir, temendo que ela se despenhasse sobre sua cabeça. Parou sem saber que partido tomar. Sentiu, então, mais do que nunca, o peso do seu fardo, vendo sair da montanha relâmpagos e chamas que ameaçavam devorá-lo (Êxodo 19:16-18). Assaltaram-no grandes temores e estremeceu de terror (Hebreus 12:21). Ai de mim! Exclamava ele, para que havia eu de fazer caso dos conselhos de Sábio-Segundo-o-Mundo? E, quando estava possuído destes temores e remorsos, viu Evangelista que se aproximava. Que vergonha! Que estremecimentos senti ao encontrar o olhar severo de Evangelista!

Evangelista – Que fazes por aqui?

Cristão não achou palavras para responder. A vergonha paralisara-lhe a língua.

Evangelista – Não foi a ti que eu encontrei a chorar fora dos muros da cidade da Destruição?

Cristão – Foi a mim, sim, senhor.

Evangelista – Então, como te perdeste tão depressa do caminho que te ensinei?

Cristão – Assim que passei o Pântano da Desconfiança, encontrei um homem que me persuadiu de que na aldeia vizinha encontraria um sujeito que me livraria do meu fardo. Pareceu-me excelente pessoa, e tantas coisas me disse que eu cedi e vim até este lugar; mas quando me aproximei do sopé da montanha, e a vi tão alta e tão a prumo sobre a estrada, parei subitamente, temendo que ela desabasse sobre mim.Este sujeito perguntou-me para onde eu ia, ao que lhe respondi com a maior sinceridade. Quis também saber se eu tinha família, e eu o afirmei, acrescentando, porém, que este fardo pesado me impedia de encontrar nela a satisfação que outrora me proporcionava. Pois – disse-me ele – é preciso que, quanto antes, te livres desse tormento, e, em vez de te dirigires a essa porta estreita onde esperas que te indiquem a maneira de conseguires esse árduo desejo, seguirás por uma estrada mais direita e melhor, onde não encontrarás tropeços, a cada passo, com menos dificuldades que no outro caminho se encontram, como o sabes por experiência. Se marchares nesta direção, chegarás em pouco tempo à casa de um homem que é muito entendido em tirar pesados fardos. Acreditei. E, de pronto, abandonei a estrada que tu me havias indicado, e segui por esta, mas quando cheguei a este lugar em que nos achamos, tive medo, estou indeciso e sem saber o que hei de fazer.

Evangelista – Espera um momento e ouve as palavras do Senhor (Cristão escutava-o, de pé, e tremendo): “Olhai, não desprezeis ao que fala; porque se não escaparam aqueles que desprezavam ao que lhes falava sobre a Terra, muito menos nós outros, se desprezarmos ao que nos fala do céu.” (Hebreus 12:25). “O justo viverá da fé; mas se ele se apartar, não agradará à minha alma.” (Hebreus 10:38). E aplicando estas palavras a Cristão, disse: Esse homem que se ia precipitando na ruína eras tu. Começaste a pôr à parte o conselho do Altíssimo, e a retirar o teu pé do caminho da paz, a ponto de te expores a perder-te.

Cristão caiu-lhe aos pés, quase desfalecido, exclamando: Ai de mim, que estou morto!

A estas palavras Evangelista estendeu-lhe a mão, dizendo-lhe: “Todo o pecado e blasfêmias serão perdoados aos homens.” (Mateus 12:31). “Não sejas incrédulo, mas crente.” (João 20:27).

Algum tanto mais animado, Cristão levantou-se, mas sempre envergonhado e trêmulo. Evangelista prosseguiu: Presta atenção ao que vou dizer-te: vais saber quem foi que te enganou, e para quem te ias dirigindo. O primeiro era Sábio-Segundo-o-Mundo, nome que muito apropriadamente usa: antes de tudo, porque só gosta das doutrinas deste mundo (I João 4:5), pelo que vai sempre à igreja da cidade da Moralidade, e gosta dessa doutrina, porque ela o livra da cruz (Gálatas 6:2); em segundo lugar, porque sendo carnal o seu temperamento, procura perverter os meus retos desígnios. Por isso há três coisas nos conselhos que esse homem te deu, as quais devem ser execrandas para ti:

1ª – Haver-te desviado do caminho;

2ª – Haver-te tentado fazer com que aborreças a cruz;

3ª – Haver-te encaminhado por essa vereda que conduz à morte.

Deves, portanto:

1º – Repudiar a quem te desviou do caminho, erro em que caíste, e que equivale a desprezar o conselho de Deus para seguir o do homem. O Senhor disse: “Porfiai em entrar pela porta estreita.” (Lucas 13:24). Para essa porta é que te dirigias. “Porque estreita é porta que conduz à vida, e poucos são os que acertam com ela.” (Mateus 7:13-14). Esse malvado desviou-te daquela porta, e do caminho que a ela vai ter, para lançar-te na perdição. Odeia, pois, o seu procedimento, odianto-te também a ti mesmo por lhe haveres prestado ouvidos.

2º – Detestar aquele que diligenciou que a Cruz te repugnasse, porque deves preferi-la a todos os tesouros do Egito (Hebreus 11:25-26). Além do que, o Rei da Glória disse-te que “aquele que salvar a sua vida perdê-la-á” e “se alguém vem após mim e não aborrece seu pai e sua mãe, filhos, irmãos e mulher e irmãs, e a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Marcos 8:35; Lucas 14:26-27; João 12:25; Mateus 10:37-39). Por isso te digo que uma doutrina que busca persuadir-te de que é morte aquilo que a Verdade disse que é indispensável para se obter a vida eterna, é uma doutrina abominável e que deves detestar.

3º – Aborrecer aquele que te encaminhou para a senda que conduz ao mistério da morte. Agora podes calcular se a pessoa a quem te dirigias, seria capaz de te livrar do teu fardo.

Essa pessoa chama-se Legalidade, e é um dos filhos da escrava, que ainda está na escravidão, assim como seus filhos (Gálatas 4:21-27), misteriosamente representada pelo monte Sinai, que tu receaste iria cair sobre ti. Ora, se ele e seus filhos estão na escravidão, como poderias tu esperar que te dessem a liberdade? Oh! Nunca! Não seria capaz Legalidade de te libertar, de livrar-te do fardo. Nunca livrou pessoa alguma, nem poderá jamais fazê-lo. Não podes ser justificado pelas obras da lei, porque por elas nenhum vivente pode ser aliviado da sua carga. Fica, pois, sabendo que Sábio-Segundo-o-Mundo é um embusteiro e Legalidade, apesar do seu sorriso afetado, não passa de um hipócrita, sem préstimo para coisa alguma. Crê que tudo quanto ouviste a esses insensatos não foi mais do que uma tentativa para te afastar da salvação, desviando-te do caminho que te havia indicado.

Assim falou Evangelista, e, erguendo a voz, pediu aos céus que confirmassem quanto havia dito. No mesmo instante saíram palavras de fogo da montanha de que se aproximara Cristão, cujos cabelos se eriçaram.As palavras que ele ouviu eram estas: “Porque todos quantos são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo o que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las.” (Gálatas 3:10).

Ao ver e ouvir isto, Cristão não esperava senão a morte. Começou a lamentar-se em altos gritos, e a maldizer a hora em que encontrara Sábio-Segundo-o-Mundo, chamando-se mesmo de néscio por ter dado ouvido aos seus conselhos destruidores e perversos.

Era imensa a sua vergonha ao lembrar-se que os conselhos daquele insensato, sendo nascidos da carne, tinham podido prevalecer sobre o seu modo de pensar, a ponto de se ter resolvido a abandonar o caminho do Bem. Voltando então para Evangelista, falou-lhe nos seguintes termos:

Cristão – Senhor, haverá alguma esperança para mim? Não poderei voltar para trás e tomar de novo o caminho da porta estreita? Não serei abandonado e expulso dali com infâmia? Pesa-me, sobretudo, haver escutado as palavras desse homem. Poderei, todavia, obter perdão para o meu pecado?

Evangelista – Na verdade que o teu pecado é bem grande. Levou-te a praticar duas ações más: apartaste-te do caminho do bem, e entraste nas veredas proibidas. Não obstante, o homem que está à porta, receber-te-á, porque há nele boa vontade para com os homens. Uma só coisa advirto: toma cuidado em não te extraviares outra vez, para que não suceda pereceres no meio do caminho (Salmo 2:12).

Cristão dispôs-se a partir e, tendo beijado Evangelista, despediu-se dele com um sorriso de felicidade, dizendo: Deus seja contigo.

E começou a andar apressadamente, não falando com pessoa alguma no caminho, nem ainda mesmo respondendo às perguntas que lhe dirigiam.

Parecia que pisava terreno inimigo, e só se considerou a salvo quando tornou a entrar no caminho que havia abandonado por conselho do enfatuado Sábio-Segundo-o-Mundo.

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*Continuação da leitura do livro "O Peregrino" para a turma da "Sala de Estudos"

 Continuação... Capítulo 4

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O Peregrino

Capítulo 2*

Vendo-se abandonado por Obstinado e Flexível, prossegue Cristão a sua viagem. O Pântano da Desconfiança.




Cristão deitou a correr na direção que lhe havia sido indicada; mas a mulher e os filhos, ao verem-no fugir, seguiram atrás dele, suplicando que voltasse para casa. Cristão não lhes deu ouvidos, e, continuando a carreira com mais velocidade, gritava em altas vozes: “Vida, vida, vida eterna!” (Lucas 14:26). E, sem olhar para trás (Gên. 19:17; II Coríntios 4:18), continuou até ao meio da planície. Acudiram também os seus vizinhos (Jeremias 20:10). Uns zombavam dele, outros ameaçavam-no, e outros ainda gritavam-lhe que voltasse. Entre estes últimos havia dois que estavam resolvidos a ir agarrá-lo e trazê-lo à força para casa. Chamavam-se Obstinado e Flexível. Apesar da considerável distância a que se achava o fugitivo, os dois vizinhos, redobrando esforços, conseguiram alcançá-lo.

– Que pretendeis de mim? Perguntou-lhes Cristão.

– Queremos que voltes conosco.

– É impossível, respondeu Cristão. A cidade em que habitais, e onde eu também nasci, é a cidade da Destruição. Se lá morrerdes, sereis enterrados num lugar mais fundo do que o sepulcro, onde arde fogo e enxofre. Eia, pois, vizinhos, tomai bom ânimo e vinde comigo.

Obstinado – Que dizes? Havemos de deixar os nossos amigos e as nossas comodidades?

Cristão – Certamente, amigo: porque tudo isso nada é, em comparação com a mais diminuta parte do que eu procuro gozar (Romanos 8:18). Se me acompanhardes, gozareis de tudo isto juntamente comigo, porque no lugar para onde me dirijo há muito, e para todos (Lucas 15:17). Vinde, e tereis a prova.

Obstinado – Mas que coisas são essas que procuras, em troca das quais abandonas tudo o que há no mundo?

Cristão – Procuro uma herança incorruptível, que não pode contaminar-se nem murchar (I Pedro 1:4), reservada com segurança no céu (Hebreus 11:16), para ser dada, no devido tempo, aos que a buscam diligentemente. Assim o declara o meu livro; lede, se quereis, e
convencer-vos da verdade.

Obstinado – Ora, deixa-te lá dessa questão de livro; queres voltar para a tua casa, ou não?

Cristão – Isso nunca; porque já pus a mão no arado. (Luc 9:62).

Obstinado – Nesse caso, vizinho Flexível, deixemo-lo partir, e vamos nós para casa. Há muita gente a quem falta o juízo, em cuja cabeça, encasquetando-se algo, é bastante para que se julgue mais atilado do que os sete sábios da Grécia reunidos.

Flexível – Nada de injúrias. Se o que ele diz é verdade, não pode haver dúvida de que as coisas que busca alcançar são incomparavelmente superiores às que possuímos. Diz-me o coração que ele está muitíssimo certo no que afirma, e eu me sinto inclinado a acompanhá-lo.

Obstinado – Então, enlouqueceste também? Ora, toma o meu conselho, e vem para casa comigo. Sabes lá onde esse doido seria capaz de te levar? Anda daí.

Cristão – Deixa-o falar, amigo Flexível; acompanha-me e terás não só a prova do que já te disse, mas ainda muito mais. Se duvidas da minha palavra, lê este livro; daquele que é seu Autor (Hebreus 9:17-21).

Flexível – Amigo Obstinado, a minha resolução está tomada; vou acompanhar este homem e unir a minha sorte à sua. Mas sabes tu (dirigindo-se a Cristão) qual é o caminho que conduz ao lugar que buscamos?

Cristão – Quem me indicou o caminho foi um homem chamado Evangelista. Segundo o que me disse ele, havemos de encontrar uma porta estreita, lá, mais adiante, e aí nos dirão o caminho que havemos de seguir.

Flexível – Então, marchemos!

E ambos se puseram a caminho. Obstinado voltou sozinho para a cidade, censurando os erros e as fantasias dos dois vizinhos. Estes continuaram a caminhar pela planície afora e conversavam nestes termos:

Cristão – Amigo Flexível, ainda não tive ocasião de me informar da tua saúde. Não imaginas quanta satisfação me causa a tua companhia. Se o pobre Obstinado sentisse, como eu, o poder e os terrores do invisível, e a grandeza das coisas que nos esperam, por certo não se teria apartado de nós tão levianamente.

Flexível – Agora que estamos sós, explica-me o que são essas coisas de que me falas, como havemos de as gozar e para onde é que nos dirigimos.

Cristão – Tenho mais facilidade em compreendê-las com o entendimento do que em expressá-las por palavras. Todavia, se tens grande desejo de saber o que penso a respeito delas, ler-te-ei o meu livro.

Flexível – E tens certeza de que as palavras do livro são verdadeiras?

Cristão – Tenho sim; porque o seu Autor é Aquele que não pode mentir (Tito 1:2).

Flexível – Então, lê-mo.

Cristão – Entraremos na posse dum reino que não terá fim, e seremos dotados de vida eterna, para podermos possuí-lo para sempre (Isaías 65:17; João 10:27-29). Ser-nos-ão dadas coroas de glória, e vestidos tão resplandecentes como o sol no firmamento (II Tim.4:8; Apocalipse 22:5; Mateus 13:43). Não haverá ali pranto nem dor (Isaías 25:8; Apocalipse 7:16-17, e 21:4), porque o Senhor daquele reino limpará todas as nossas lágrimas.

Flexível – Quadro belo e magnífico! E a quem teremos por companheiros?

Cristão – Estaremos com os querubins e serafins (Isaías 6:2; I Tessalonicenses 4:16-17; Apocalipse 5:11), criaturas cujo brilho nos deslumbrará; também encontraremos milhares e milhares que para ali foram antes de nós, todos inocentes, amáveis e santos, que vivem na presença de Deus para sempre. Veremos os anciãos com suas coroas de ouro (Apocalipse 4:4), as santas virgens entoando suaves cânticos ao som das suas harpas de ouro (Apocalipse 14:1-5), homens a quem o mundo esquartejou, outros que foram queimados em autos de fé ou devorados pelas feras, ou lançados nas profundezas dos mares, por amor do príncipe daquele reino; vivendo todos felizes, revestidos da imortalidade (João 12:25; II Coríntios 5:2, 3, 5).

Flexível – A simples descrição arrebata-me de entusiasmo. E havemos de gozar esses bens? Que faremos para conseguir partilhar deles?

Cristão – O Senhor do reino declara neste livro (Isaías 55:1-2; João 4:37; e 7:37; Apocalipse 16:6; 22:17) quais são os requisitos; eles se resumem nestas palavras: “Se verdadeiramente os desejamos, Ele no-los concederá de graça”.

Flexível – Muito bem, amigo. O meu coração exulta de alegria; continuemos o nosso caminho e apressemos o passo.

Cristão – Infelizmente não posso andar tão depressa como desejo, porque este fardo que tenho às costas é pesadíssimo.

Conversavam ambos nestes termos, quando os vi chegar à beira dum lodoso pântano, que havia no meio da planície, onde ambos caíram por não o terem visto, entretidos como iam na conversa. Era o pântano da Desconfiança. Coitados! Atolaram-se no lodo, e Cristão atolava-se cada vez mais por causa do seu pesado fardo. – Onde é que nós estamos metidos? Exclamou Flexível.

– Ignoro, respondeu Cristão.

– Então, replicou Flexível, esta é a felicidade de que tens estado a falar? Se assim começarmos a viagem, não posso agourar-lhe bom fim. Mas eu prometo que, se me vejo livre desta, dispensarei de bom grado a parte que poderia pertencer-me do tal decantado país. E fazendo um pequeno esforço, conseguiu alcançar a margem do pântano que ficava para o lado de sua casa. Logo que se viu fora do perigo, deitou a correr na direção de sua casa, e Cristão não mais tornou a vê-lo.

Entretanto, debatia-se Cristão no meio do lodo, diligenciando por chegar à margem oposta; mas o pesado fardo, que transportava, embaraçava-o sobremaneira e ele teria irremediavelmente perecido, se não tivesse chegado ali, muito a propósito, um sujeito chamado Auxílio, que lhe perguntou o que fazia naquele lodaçal.

Cristão – Senhor, um homem chamado Evangelista ensinou-me esta estrada para eu chegar à porta estreita, dizendo que lá me livrariam da ira vindoura. E, quando vinha caminhando, aqui caí inesperadamente.

Auxílio – Bem. Mas por que não seguiste pelas alpendras, aquelas pedras que ali estão colocadas para se atravessar o pântano com mais facilidade?

Cristão – Foi tal o receio que de mim se apoderou que, sem reparar em coisa alguma, segui pelo caminho mais curto e caí no lodaçal.

Auxílio – Vamos. Dá-me, pois, a tua mão.

Cristão viu os céus abertos. Apoderou-se da mão de Auxílio, saiu daquele terrível lugar, e, uma vez em terreno firme, continuou o seu caminho, conforme o seu libertador lhe havia indicado.

Acerquei-me, então, de Auxílio, e perguntei-lhe: Ora, sendo este caminho direito entre a cidade da Destruição e essa porta, por que não mandam arranjar este lugar com mais decência para comodidade dos pobres caminhantes?

– É impossível, respondeu ele; este é o lodaçal para onde afluem todas as fezes e imundícies dos que se dirigem para a convicção do pecado, por isso se chama o Pântano da Desconfiança. Quando o pecador desperta no conhecimento das suas culpas e do seu estado de perdição, surgem em sua alma dúvidas, temores, apreensões desconsoladoras que se ajuntam e se condensam neste lugar. Eis a razão por que ele é tão esquecido e tão impossível de ser melhorado. Por certo que não foi da vontade de el-rei que ele ficou em tão mau estado (Isaías 35:3-4). Muitos operários têm, por ordem de Sua Majestade, e sob a direção dos seus superintendentes, durante muitos séculos, envidado todos os seus esforços para o melhorarem. É incalculável o número de carro e os milhões de saudáveis lições que para aqui têm sido enviados de todas as partes e domínios de Sua Majestade. Mas, apesar da opinião dos entendidos que asseveram ser estes os melhores materiais para a obra do almejado saneamento moral, ainda não foi possível realizá-lo, nem o será para o futuro. O Pântano existe e continuará a existir! Fez-se quanto se podia fazer. Por ordem do Legislador, foram colocadas no meio do pântano umas pedras fortes e sólidas, por onde se possa passar mais facilmente; mas, quando o lodaçal se agita, o que sempre acontece nas mudanças de tempo, exala miasmas que sufocam os viandantes, e estes, não vendo as pedras, caem no atoleiro. O que lhes vale é que, quando conseguem alcançar a porta, já encontram terreno bom e firme.

Depois vi que Flexível chegava à sua casa e que os seus vizinhos acudiam, em tropel, para o verem. Uns chamavam-no sábio, porque abandonara a tempo a empresa; censuravam-no outros por se haver deixado iludir por Cristão, e alguns chamavam-no de covarde porque, uma vez no caminho, não deveria ter retrocedido pelo fato apenas de lhes haverem levantado umas pequenas dificuldades. Flexível sentiu-se abatido e envergonhado, mas pouco depois, achava-se senhor de si, e, então, todos em coro escarneciam de Cristo, na sua ausência.

E assim sendo, creio que não tornarei a falar mais de Flexível.
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*Continuação da leitura do livro "O Peregrino" para a turma da "Sala de Estudos"

 Continuação... Capítulo 3

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O Peregrino

John Bunyan
John Bunyan (1628-1688), escritor cristão e pregador puritano nascido em Harrowden vilarejo de Elstow, Inglaterra, escreveu "O Peregrino" quando estava preso tendo sido proibido de pregar.

O Peregrino é um clássico da literatura cristã, conhecido por cristãos do mundo todo, já foi traduzido para quase todas as línguas, ele foi escrito no séc. XVII por John Bunyan, sendo publicado pela primeira vez em 1678. O livro descreve a caminhada de Cristão, um homem que deixou a Cidade da Destruição rumo à Cidade Celestial. 



Capítulo 1*

Começa o sonho do autor – Cristão, convencido do pecado, foge à ira vindoura e Evangelista o dirige a Cristo.


Caminhando pelo deserto deste mundo, parei num sítio onde havia uma caverna; ali deitei-me para descansar. Em breve adormeci e tive um sonho. Vi um homem coberto de andrajos, de pé, e com as costas voltadas para a sua habitação, tendo sobre os ombros uma pesada carga e nas mãos um livro (Isaías 64:6; Lucas 14:33; Salmo 38:4; Habacuque 2:2). Olhei para ele com atenção e vi que abria o livro e o lia; e, à proporção que o ia lendo, chorava e estremecia, até que, não podendo conter-se por mais tempo, soltou um doloroso gemido e exclamou: “Que hei de fazer?” (Atos 2:37 e 16:30; Habacuque 1:2-3).

Neste estado voltou para sua casa, diligenciando reprimir-se o mais possível, a fim de que sua mulher e seus filhos não percebessem sua aflição. Como, porém, o seu mal recrudecesse, não pôde por mais tempo dissimulá-lo, e, abrindo-se com os seus, disse por esta forma:

“Querida esposa, filhos do coração, não posso resistir por mais tempo ao peso deste fardo que me esmaga. Sei com certeza que a cidade em que habitamos vai ser consumida pelo fogo do céu, e todos pereceremos em tão horrível catástrofe se não encontrarmos um meio de escapar. O meu temor aumenta com a idéia de que não encontre esse meio.”

Ao ouvir estas palavras, grande foi o susto que se apoderou daquela família, não porque julgasse que o vaticínio viesse a realizar-se, mas por se persuadir de que o seu chefe não tinha em pleno vigor as suas faculdades mentais.

E, como a noite se avizinhava, fizeram todos com que ele fosse para a cama, na esperança de que o sono e o repouso lhe sossegariam o cérebro. As pálpebras, no entanto, não se lhe cerraram durante toda a noite, que passou em lágrimas e suspiros.

Pela manhã, quando lhe perguntaram se estava melhor, respondeu negativamente, e que a moléstia cada vez mais o afligia. Continuou a lastimar-se, e a família, em lugar de se compadecer de tanto sofrimento, tratava-o com aspereza. Esperava, sem dúvida, alcançar por este modo o que a doçura não pudera conseguir até ali: algumas vezes zombavam dele; outras repreendiam-no;e quase sempre o desprezavam.

Só lhe restava o recurso de se fechar no seu quarto para orar e chorar a sua desgraça, ou o de sair para o campo, procurando na oração e na leitura lenitivo a tão indescritível dor.

Certo dia, em que ele andava passeando pelos campos, notei que se achava muito abatido de espírito, lendo, como de costume, e ouvindo-o exclamar novamente: “Que hei de fazer para ser salvo?”

O seu olhar desvairado volvia-se para um e outro lado, como em busca de um caminho para fugir; mas, não o encontrando de pronto, permanecia imóvel, sem saber para onde se dirigir.

Vi, então, aproximar-se dele um homem chamado Evangelista (Atos 16:30-31; Jó 33:23) que lhe dirigiu a palavra, travando-se entre ambos o seguinte diálogo:

Evangelista – Por que choras?

Cristão – (Assim se chamava ele). – Porque este livro me diz que eu estou condenado à morte, e que depois de morrer, serei julgado (Hebreus 9:27), e eu não quero morrer (Jó 16:21-22), nem estou preparado para comparecer em juízo! (Ezeq. 22:14).

Evangelista – E por que não queres morrer, se a tua vida é cheia de tantos males?

Cristão – Porque temo que este pesado fardo que tenho sobre os ombros, me faça enterrar ainda mais do que o sepulcro, e eu venha a cair em Tofete (Isaías 30:33). E, se não estou disposto a ir para este tremendo cárcere, muito menos para comparecer em juízo ou para esse suplício. Eis a razão do meu pranto.

Evangelista – Então, por que esperas, agora que chegaste a esse estado?

Cristão – Nem sei para onde me dirigir.

Evangelista – Toma e lê. (E apresentou-lhe um pergaminho no qual estavam escritas estas palavras: “Fugi da ira vindoura”). (Mateus 3:7).

Cristão – (Depois de ter lido). E para onde hei de fugir?

Evangelista – (Indicando-lhe um campo muito vasto). Vês aquela porta estreita? (Mateus 7:13-14).

Cristão – Não vejo.

Evangelista – Não avistas além brilhar uma luz? (Salmo 119:105; II Pedro 1:19).

Cristão – Parece-me avistá-la.

Evangelista – Pois não a percas de vista; vai direito a ela, e encontrarás uma porta; bate, e lá te dirão o que hás de fazer.
 

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*Trecho do livro "O Peregrino" de John Bunyan

 Continuação... Capítulo 2